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  • Sinantrópicos Ambiental

Aves que predam cobras são imunes ao veneno?

Risco de picada e ingestão de um animal com peçonha intrigam; estratégias de caça são o diferencial das espécies que têm na dieta esse "cardápio" inusitado.



Acauã é ave de rapina "especialista" em capturar serpentes peçonhentas — Foto: Thiago Tolêdo/Arquivo Pessoal


Entre as leis da natureza a mais surpreendente é a da sobrevivência. Para não morrer de fome os animais se arriscam em estratégias de caça, enquanto as presas lutam pela vida. Esse é o ciclo que garante o equilíbrio do meio ambiente. Na maioria das vezes (exceto entre os animais topo de cadeia) predadores também são presas, situação que torna ainda mais desafiador o simples fato de sobreviver.

Pense em uma serpente. Agora me conta: você imagina o animal como presa ou predador? Além da agilidade das espécies, a fama de animais ‘perigosos’ nos faz imaginar as cobras como predadoras imbatíveis, principalmente as peçonhentas. No entanto, muitas delas compõem o cardápio de aves brasileiras. De acordo com um levantamento feito pela bióloga Eletra de Souza, em parceria com outras três pesquisadoras, pelo menos 28 espécies de aves predam algum tipo de serpente. “Os registros mais frequentes foram de aves de rapina como acauã, carcará, gavião-carijó, gavião-caboclo e gavião-preto. Na lista das predadoras de serpentes também está o anu-branco, que não é um rapinante”, diz.


Gavião-preto é flagrado predando uma cobra-d'água (Helicops infrataeniatus) — Foto: Cláudio Timm/Arquivo Pessoal


O levantamento indica ainda quais aves são capazes de predar serpentes peçonhentas. “O acauã, o carcará, o gavião-preto, a águia-cinzenta e o carrapateiro predam animais peçonhentos, principalmente jararacas e cascavéis. Além dessas aves de rapina, o matracão também inclui espécies peçonhentas na dieta, dado que chamou bastante atenção”, revela Eletra, que explica a relação dos predadores com a peçonha.

“Não existem dados na literatura que indique qualquer tipo de imunidade ou resistência das aves ao veneno das serpentes. Aparentemente as aves conseguem predar espécies venenosas porque desempenham um comportamento de predação específico, que evita de serem picadas”, diz.




Voo surpresa com ataque certeiro é a estratégia das aves que predam serpentes — Foto: Vitor Marigo/Arquivo Pessoal


Quem confirma a estratégia das aves, principalmente das rapinantes, é o ornitólogo especialista em aves de rapina, Willian Menq, que destaca o acauã como ‘capitão’ desse time de aves predadoras de serpentes peçonhentas. “Ele captura dezenas de espécies, venenosas e não venenosas. O mais impressionante é a confiança da ave - que não é imune à peçonha - na sua habilidade de caça: as capturas têm quase 100% de eficiência e, quando não são realizadas, a ave sai ilesa. São raros os casos do acauã ser picado por serpentes”, explica.

“O sucesso da captura é resultado de um voo estratégico. Ele fica pousado em um poleiro elevado, observando o solo. Quando vê uma serpente fecha as asas e desce com muita agilidade, já focando na cabeça da serpente. Ele gruda as garras na cabeça dela e com o bico já golpeia o pescoço. Por conta dessa captura certeira e pelo ataque surpresa as serpentes quase não têm chance de revidar”, detalha Menq, que destaca outra característica importante desse predador. “Os tarsos do acauã são tão espessos que se uma serpente tentar picar ela terá dificuldades em injetar o veneno”, completa.


Apesar de quase infalível, a estratégia de caça das aves pode ser falha. “Tem um relato na literatura de um mioto-da-Jamaica, uma ave de rapina da América do Norte, morrer com sinais claros de envenenamento pouco tempo após pousar em terra com uma cobra coral decapitada. Provavelmente a abordagem da cobra coral não deu muito certo, e a ave foi picada antes de conseguir decapitar a cobra”, comenta Eletra.


Apesar de quase infalível, a estratégia de caça das aves pode ser falha. “Tem um relato na literatura de um mioto-da-Jamaica, uma ave de rapina da América do Norte, morrer com sinais claros de envenenamento pouco tempo após pousar em terra com uma cobra coral decapitada. Provavelmente a abordagem da cobra coral não deu muito certo, e a ave foi picada antes de conseguir decapitar a cobra”, comenta Eletra.



Jiboia predou gavião-carijó e biólogo acompanhou predação por cerca de 30 minutos — Foto: Pablo Souza/ Arquivo Pessoal


Digestão ‘venenosa’

E se você está perguntando como a ave digere a serpente sem se prejudicar pelas toxinas da peçonha, entenda: “o efeito da peçonha só é prejudicial quando entra em contato com a corrente sanguínea. Então, em teoria, não existe nenhum problema em ingerir a cobra depois de morta”, finaliza a bióloga.



Seriema com cobra no pescoço chamou atenção de observadora; ave também se alimenta de serpentes — Foto: Elisa Torricelli/ Vc no TG


Apetitosas

De acordo com as pesquisas, as serpentes da família Dipsadidae (como serpente-olho-de-gato, muçuarana, falsa-jararaca e cobra-manchada) são as mais predadas por aves brasileiras. “Dos 99 registros de serpentes predadas por ave, 70 foram com espécies dessa família – a mais diversa da América do Sul”, destaca Eletra.

No Brasil cerca de 270 espécies pertencem a essa família – quase 60% do total de serpentes que ocorrem no País. “Por isso acreditamos que elas são mais predadas simplesmente por ser as mais abundantes”, diz.

“Vale destacar que essa é uma família de serpentes que não são peçonhentas: com exceção de algumas que podem eventualmente causar problemas de importância médica um pouco mais sérias, nenhuma delas tem o mesmo tipo de dentição ou veneno que uma jararaca e cascavel têm. Para as peçonhentas, foram seis registros de predação”, completa a especialista, que também destaca predações de serpentes de grande porte. “Tiveram quatro registros de predação de cascavéis, além de um flagrante de um carcará predando uma jiboia e um carrapateiro predando uma jiboia-arco-íris. As jiboias são espécies de grande porte, podendo atingir até quatro metros de comprimento. Assim como elas, as cascavéis também são consideradas de grande porte, pois, apesar de raramente ultrapassar os dois metros, são cobras muito robustas”.



Cascavel também pode ser presa para algumas espécies de aves do Brasil — Foto: Rafael Menegucci/VC no TG


Descoberta cidadã

As evidências levantadas por Eletra e a equipe de pesquisadoras são tema de um artigo científico em fase final de edição e foram levantadas a partir das informações disponíveis no Wikiaves. “A grande maioria dos observadores e observadoras que colaboram para a plataforma não são cientistas. Então esses dados são frutos da ciência cidadã. É legal perceber o potencial dessas plataformas de reportar hábitos de animais silvestres até então desconhecidos pela comunidade científica”, destaca a pesquisadora.


FONTE: G1

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